Santa Izabel do Pará
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Conheça a história de Santa Izabel do Pará
Conheça a história do município de Santa Izabel, que homenageia uma mulher comum e vítima do machismo
A Izabel original era uma enfermeira não profissional. Mas era tão amada e caridosa que o apelido de "santa" pegou.
foto: Cleveson Cancela.
A imagem que fica na entrada do município é a Santa Isabel de Portugal. Mas não é por causa dela que a cidade se chama assim. O município de Santa Izabel do Pará completa, nesta semana, 85 anos. Mesmo após todo esse tempo, ainda resta uma dúvida sobre a grafia do nome: S ou Z? A pedagoga e historiadora Minervina de Lourdes Soares, dedicada ao registro da história da cidade, com cinco livros publicados sobre o tema, explica que é com Z. Isso pela verdadeira Izabel que dá nome ao município, que nada tem a ver com a atual padroeira, a Santa Isabel de Portugal (essa com S). Por sinal, a padroeira original era Santa Maria. E Izabel era uma mulher que sofreu com o machismo e com o preconceito da igreja católica no século XIX, intolerante com uma mulher solteira e que havia se envolvido com um "homem de família".Minervina conta que em 1875, o Governo Imperial Português estava iniciando a colonização no Pará. O então imperador D. Pedro II autorizou a convocação de um topógrafo para iniciar a ocupação do chamado "Núcleo Colonial de Benevides", que compreendia de onde hoje é Marituba até onde acaba o território de Santa Izabel. Valentim José Ferreira foi o escolhido para liderar a expedição que faria assentamentos de 20 em 20 quilômetros. Essas ocupações são os primórdios da BR-316. Durante a viagem, conheceu uma moça: Izabel. Apaixonou-se e a levou com ela durante os trabalhos. Valentim era casado e tinha filhos. A família morava em Belém.A historiadora explica que como chefe da expedição, Valentim tinha a responsabilidade de cuidar de todos os trabalhadores. Era responsável por curativos e medicação, caso necessário, para as muitas doenças silvestres da época. Então passou essa função e todos os materiais e remédios para Izabel. A jovem tinha talento para lidar com a enfermagem. Dócil e atenciosa, cuidava pacientemente de todos os trabalhadores e eventuais viajantes encontrados na expedição. Valentim raramente voltava para casa. Se uma viagem hoje de Benevides para Belém pode levar uma hora ou mais, dependendo do trânsito, de carroça e por trilhas podia demorar um dia inteiro. Ou mais.
"SANTA", UM APELIDO CARINHOSO
Valentim, diz Minervina, diante da bondade, talento, beleza, pureza e inocência de Izabel, a apelidou de "Santa". "Ele costumava dizer aos trabalhadores que não queria moleza e queria terminar o trabalho o quanto antes porque queria ver a Santa dele", observa a historiadora. O apelido rapidamente se espalhou entre os trabalhadores da expedição.Quando chegou aonde hoje é Santa Izabel, Valentim se encantou com a terra. E ali disse que iria construir uma moradia para viver com Izabel. O nome do local não poderia ser outro: Vila Izabel. Os registros históricos mostram que era com Z, aponta Minervina. O casal lá ficou até que as responsabilidades com a família original obrigaram Valentim a voltar para casa. Ele abandonou Izabel. A moça o continuou esperando e se dedicando ao trabalho de enfermeira.A vila se estabeleceu, cresceu e a fama da "Santa Izabel" continuava, pois ajudou muitos viajantes pelo caminho que levava ao Maranhão. O local passou a se chamar Vila de Santa Izabel. A historiadora mora perto de onde moravam Valentim e Izabel no passado, onde hoje é o bairro Centro.Os colonos então ergueram uma capela para Santa Maria, a padroeira original do município de Santa Izabel. Um padre então teve de ser designado para cuidar das atividades da igreja. O escolhido foi Antônio Lira Pessoa Maria. Ao chegar no local, que se chamava Santa Izabel, mas tinha uma igreja para Santa Maria, ficou curioso e quis conhecer a fundo a história.
PADRE DIFAMOU IZABEL PARA TIRAR O APELIDO DE "SANTA"
"Quando soube quem era a 'Santa Izabel', o padre se enfureceu. Não admitia que uma mulher solteira e que tinha se envolvido com um homem casado, mesmo que não tivesse culpa, fosse chamada de santa. Ainda mais quando havia uma santa com esse nome. O padre a chamou de prostituta e a fez ficar conhecida assim", relata a historiadora, que passou a se dedicar à história da cidade por sentir falta de material histórico para trabalhar nas escolas do município. O padre utilizou todos os recursos que tinha para mudar o nome da vila, que passou a se chamar Vila São João Batista.Curiosamente, numa época puritana, extremista, intolerante a mulheres solteiras e que tivessem um relacionamento informal com um homem — sobretudo casado e com filhos —, mesmo que não fosse culpa da mulher, a população renegou o machismo e defendeu Izabel. Os ocupantes lutaram e conseguiram devolver à vila o nome original. Ainda sob a influência da igreja, a vila chegou a se chamar Santa Isabel de Benevides, mas com uma alusão direta à santa portuguesa, para desvincular totalmente o nome santo de uma mulher comum e que já fora taxada de prostituta, ainda que não fosse.No dia 7 de janeiro de 1934, durante o governo de Magalhães Barata, a Vila de Santa Isabel, que era distrito de Belém, foi emancipada. Contudo, ganhou o nome de João Coelho, em homenagem ao ex-governador do Pará. A população seguiu a tradição histórica e lutou para que o nome continuasse sendo o de Izabel, a "santa enfermeira" e companheira de Valentim. Foram mais 17 anos até que o município, finalmente, se chamasse Santa Izabel do Pará. O que sobrou de Valentim na história é o nome dado à rua onde fica a Câmara Municipal.A confusão sobre a grafia com S ou com Z, explica Minervina, aumentou quando trabalhos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicavam que era com S, mesmo tudo sendo com Z desde os documentos históricos mais antigos. A placa da entrada da cidade diz "Santa Isabel" e os visitantes dão de cara com uma imagem da santa portuguesa. E um ginásio, logo atrás, cuja grafia é com Z. "Porém, quem tem que determinar isso de fato é a Câmara Municipal: se escrevemos com S ou com Z, oficialmente, por lei. Mas em 85 anos isso nunca foi feito. Sempre esperamos uma solução para essa questão histórica", conclui a historiadora
fonte: O Liberal.
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